Minha mãe nasceu em São José da Barra, uma das cidades submersas pelo Rio Grande em 1962 para a criação da represa de Furnas, a maior hidrelétrica que o país já vira. Deslocar uma comunidade inteira nunca é simples. Com a nova vida, muitos ribeirinhos não suportaram a separação de seu “pedacinho de chão”. A narrativa oficial falava de progresso, mas pouco se disse sobre o território afetivo que já existia, construído pelo tempo de quem vivia ali.
Houve perdas profundas: laços, memórias e amizades foram engolidos pelas águas. Conto aqui um retalho dessa história familiar, tecido pelas vozes de tios, avós e da minha bisavó.
Dizem que um homem se recusou a partir e refugiou-se no telhado de sua casa. Enquanto a água subia, ele teimava: “Daqui não saio”. Precisou ser resgatado por um helicóptero quando o teto já estava quase submerso. Em épocas de seca severa, ainda é possível avistar a torre da antiga igreja, a construção mais alta da cidade onde minha mãe, quando criança, brincava na areia do rio.
Minha bisavó nasceu em Santo Hilário. Viúva jovem, criou cinco filhos vendendo manteiga em latas que viajavam pelo Rio Sapucaí até São Paulo, em barcos a vapor. Com esforço, realizou um sonho: enviou as filhas para um colégio interno raridade numa época em que quase 90% da população era analfabeta e poucas mulheres estudavam além do básico.
Assim, minha avó Nhanhá estudou com as irmãs no Colégio Kemper, em Lavras. Foi lá que conheceu meu avô, Nhonhô, um dos poucos homens com formação universitária no início do século XX. Nascido em 1896, em Piumhi, ele se formou em Farmácia em Ouro Preto. Como a vida é feita de voltas, tenho hoje dois netos que também nasceram em Piumhi: Isac, em 2015, e Felipe, em 2023.
Nhanhá e Nhonhô tiveram onze filhos, entre eles, minha mãe. As sete meninas foram batizadas com a letra I; os quatro meninos, com R.
Quando a represa chegou, em 1962 ano em que nasci, minha família já não morava na Barra, mas as visitas ao lugar nunca cessaram. Para o meio ambiente, a represa foi uma ferida: o curso do rio mudou, afetando peixes e ecossistemas. Árvores e casas ficaram submersas, apodrecendo no silêncio das águas.
Com a inundação, perderam-se ruas, a pracinha e o pé de goiaba de onde pulavam no rio. Ficaram para trás os pés de gabiroba, cagaiteira, abacate e manga. Nunca mais veriam a varanda da Vovó Saninha, com sua rede e sua cadeira de balanço. As roseiras resistiram e não quiseram sair da terra; o jasmim-do-cabo, podado antes da mudança, secou de tristeza. As crianças levaram seus bichos e, de longe, viram a torre da igreja desaparecer.
A antiga igrejinha ficava perto do rio, mas a nova era o orgulho da cidade. Seu sino marcava missas, casamentos e velórios. Ele dobrou pela última vez na despedida um dia de tanto choro que parecia formar um rio de lágrimas sobre o rio que subia.
Perto dali, um ipê-amarelo guardava histórias: promessas, segredos e amores. Guardou tudo. Hoje, sempre que vejo um ipê florescer, lembro desse guardador de memórias, que agora repousa sob uma represa do tamanho de um mar.

